quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Priya

Era outono. Do caminho de onde eu me encontrava, pude avistar de longe uma árvore e, com os olhos focados nela, fui seguindo em sua direção. Ao me aproximar, sentei embaixo de sua frondosa copa, madeira escurecida pelo tempo ingrato e deixei, lentamente, meu corpo acordar com os arrepios do toque da minha pele no chão gelado. Eu estava em estado mental inerte, observando as coisas fora de mim e deixando meus olhos percorrerem vagarosos a paisagem que se formava ao meu redor. As folhas serpenteavam no ar, como uma dança que apenas a natureza entende, e em meio a rodopios, caíam no chão, findando sua breve jornada ali. Eram de um tom marrom-alaranjado com leves pinceladas amareladas e tinham um cheiro de melancolia, que exalava por todo o local. A tarde ia caindo e o sol já não me ardia os olhos. Estes iam escorrendo por entre as tonalidades do pôr-do-sol, marcando o céu com uma convulsão de cores quentes, obra de um pintor tristonho, decadente. Então inspirei profundamente e fechei os olhos, acumulando aquele frescor tão gostoso que a brisa fresca trazia de longe e sentindo a ponta dos meus dedos formigando. Permaneci ali imóvel, com os olhos fechados. Respiração lenta, burburinho de pequenos animais e dos galhos se chocando uns com os outros. Respiração lenta, escuridão sob as pálpebras. Respiração lenta, silêncio. Foi então que, em um certo momento, senti algo bloqueando a fraca passagem de luz até mim e fui abrindo os olhos, tateando com estes semi-abertos uma figura alta que se projetava á minha frente. O que é isso? Antes que pudesse responder o questionamento em minha mente, aquela figura estendeu a mão e com a ponta dos dedos, segurou o meu queixo. Ainda que com dificuldade, pude ver quem era. Eu não o conhecia, mas me era familiar de algum modo estranho. Da ponta de seus dedos eu pude sentir a fragrância que exalava de sua pele. Não me lembrava nada específico, talvez tivesse um tom exótico naquele cheiro, bem, eu não sabia. Talvez eu tenha ficado ali apreciando o aroma or alguns longos segundos, não me lembro ao certo. Voltei minha atenção para seu rosto. Seus cabelos negros tinham um brilho diferente naquela paisagem, os fios escorriam vagarosos pelo seu rosto e terminavam hora em seus olhos, hora no rumo da boca, hora em sua nuca, jogados de um jeito desarrumado. Seu nariz era aristocrático e combinava perfeitamente com sua boca. Os olhos, eram inocentes e as cores me lembravam as folhas jazidas no chão. De acordo com a maneira que movia seu rosto bem desenhado, as cores brincavam comigo, iam se misturando, hipnotizantes. Seu olhar foi me analisando de cima em baixo e quanto mais ele olhava, mais seu sorriso se abria, luminoso. Quem é este homem e por que me olha desta maneira? Por fim, percorreu o caminho de volta até o meu rosto e então disse com uma voz suave, se inclinando perto do meu ouvido: "Minha rajkumari, enfim te encontrei. Nossos destinos se entrelaçaram e mais uma vez pude ver seus lindos olhos, sundari...". Notei que havia um resquício de sotaque em algumas palavras. Não respondi, estava assustada e confusa, não consegui me mover e nem simplesmente questioná-lo. Ele sentou-se ao meu lado e ficou brincando com os meus dedos. Eu sentia uma forte conexão com aquela misteriosa pessoa, de alguma forma entendia o fato dele estar ali, como se concordasse e entendesse suas palavras. Como se eu já as estivesse esperando a tempo. Imersa em confusos pensamentos, estremeci ao sentir seus braços me envolvendo. Não consigo recuar... não quero recuar. O encarei tentando explicar porque sem conhecê-lo, eu me sentia tão segura ao lado daquele desconhecido. Mas estava presa demais ao seu olhar magnético. Pude sentir o calor do seu rosto se aproximando vagarosamente do meu, o braço que me envolvia me puxando para perto de si, o tempo ficando lento e as coisas ao redor desaparecendo...as forças do meu corpo foram se esvaindo... então tudo ficou turvo de repente. Abri os olhos aos sobressaltos! Percebi que havia adormecido no chão, de mal jeito, e meu corpo reclamava de dores. Levei a mão nos cabelos desarrumados e com o cenho franzido, fui voltando a realidade. Quando percebi o que havia acontecido, procurei ao meu redor para ver se ele ainda estava ali, assustada e ainda com esperanças de encontrá-lo. Teria sido tudo apenas um sonho? Não era possível, havia sido tão real. Mas nada de vestígios daquele rapaz. Meu corpo se retesou, apreensivo e dolorido com a forma que eu havia caído no sono, entre as raízes tortas. Havia passado algumas horas já desde o momento em que eu havia chegado ali naquele lugar e comecei a ficar preocupada com o tempo que havia gasto em minha não tão breve fantasia (o sol já havia sumido fazia tempo e a noite jazia serena). Me levantei, limpei a sujeira da minha roupa e me espreguicei, aproveitando para dar uma boa olhada no céu e num singelo contorno, do que parecia ser a lua. Suspirei fundo e decidi andar por uma trilha de terra por entre as árvores, que certamente me levaria a uma rua onde eu poderia seguir meu caminho até a minha casa. Enquanto eu andava, ia chutando as pedrinhas que se encontravam no chão e em meio aos passos, ia lembrando daquele rapaz de postura nobre como alguém da realeza, que até em roupas mais simplórias demonstraria força e confiança, com seu toque levemente angelical, perturbadoramente atraente. A árvore foi ficando para trás e com ela, minhas pertubações. Em cada pedrinha lançada longe pelos meus pés, levando junto o que havia sobrado dos meus pensamentos, eu desfrutava daquela breve imagem, daquele breve toque e de seus lábios se abrindo em doces palavras, sundari lembrança...

Nenhum comentário:

Postar um comentário