sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sensações


Olhei para os meus pés. Eles se encontravam afundados na areia com os restos das borbulhas provenientes das ondas do mar, que vagarosas e geladas, vinham de encontro a mim de tempos em tempos. Voltei meus olhos para o infinito do mar e ali gastei alguns segundos. O que toda a sua imensidão esconde de mim? Minha curiosidade e ansiedade, esperança e devoção se estendem até ali, naquela linha onde o azul da água emenda com o azul do céu. Sorri para mim mesma e sai correndo, sentindo o áspero da areia e o toque suave do vento em meu rosto, chicoteando meus cabelos negros como cobras enfurecidas. Subindo ao cais e entrando na pacata cidade, ninguém se encontrava na rua. Ninguém, a não ser por um velho, que em sua bicicleta, carregava algumas frutas na cesta. Suas rugas carregavam história e experiência. Sua boca carregava um sorriso desajeitado, como quem espera a morte com a certeza de que ela virá humilde, suave e trajando bonitas vestes. Talvez seu sorriso se desse pela bonita manhã, não sei ao certo. Não pude encará-lo. Caminhei de cabeça baixa observando as pedras que se encontravam em meu caminho e ignorei todas. Eu não pertencia àquele lugar.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Vento confidente

Em meu sonho, o vento me contou que teus olhos tem o castanho mais bonito que há. Me contou que a tua pele tem um perfume indecifrável, tem o perfume dos teus olhos serenos. Ele me contou que quando bate em seus cabelos, se perde nos movimentos embriagantes que teus fios fazem e se encontra em teus dedos, tentando arrumá-los. Ele me confessou que se fez descontente com o tempo, que teima em sua efemeridade, não guardar o teu sorriso pra eternidade, para os dias infinitos. Mas não culpo o tempo, é apenas uma criança impaciente e ansiosa, que faz de cada segundo um pedaço de seu quebra-cabeça, cujo qual vai montando incessantemente o abstrato da história. Como é tolo o tempo! Ele devia parar um instante para te observar. Observar como você se movimenta e como isso parece tão angelical. Veria como seus defeitos se tornam as notas de uma música. Música que o vento carrega em suas costas e traz para mim, sim, para mim. Quão sortudo o vento é, que surge dos quatro cantos para te envolver de uma só vez, te abraçar afavelmente, cortês. Todas essas coisas ele me contou aos murmúrios. Mas talvez não fosse o vento...talvez não fosse um sonho.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Você suga todas as minhas energias até minhas pernas fraquejarem
E então, me deixa aqui, caída.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Priya

Era outono. Do caminho de onde eu me encontrava, pude avistar de longe uma árvore e, com os olhos focados nela, fui seguindo em sua direção. Ao me aproximar, sentei embaixo de sua frondosa copa, madeira escurecida pelo tempo ingrato e deixei, lentamente, meu corpo acordar com os arrepios do toque da minha pele no chão gelado. Eu estava em estado mental inerte, observando as coisas fora de mim e deixando meus olhos percorrerem vagarosos a paisagem que se formava ao meu redor. As folhas serpenteavam no ar, como uma dança que apenas a natureza entende, e em meio a rodopios, caíam no chão, findando sua breve jornada ali. Eram de um tom marrom-alaranjado com leves pinceladas amareladas e tinham um cheiro de melancolia, que exalava por todo o local. A tarde ia caindo e o sol já não me ardia os olhos. Estes iam escorrendo por entre as tonalidades do pôr-do-sol, marcando o céu com uma convulsão de cores quentes, obra de um pintor tristonho, decadente. Então inspirei profundamente e fechei os olhos, acumulando aquele frescor tão gostoso que a brisa fresca trazia de longe e sentindo a ponta dos meus dedos formigando. Permaneci ali imóvel, com os olhos fechados. Respiração lenta, burburinho de pequenos animais e dos galhos se chocando uns com os outros. Respiração lenta, escuridão sob as pálpebras. Respiração lenta, silêncio. Foi então que, em um certo momento, senti algo bloqueando a fraca passagem de luz até mim e fui abrindo os olhos, tateando com estes semi-abertos uma figura alta que se projetava á minha frente. O que é isso? Antes que pudesse responder o questionamento em minha mente, aquela figura estendeu a mão e com a ponta dos dedos, segurou o meu queixo. Ainda que com dificuldade, pude ver quem era. Eu não o conhecia, mas me era familiar de algum modo estranho. Da ponta de seus dedos eu pude sentir a fragrância que exalava de sua pele. Não me lembrava nada específico, talvez tivesse um tom exótico naquele cheiro, bem, eu não sabia. Talvez eu tenha ficado ali apreciando o aroma or alguns longos segundos, não me lembro ao certo. Voltei minha atenção para seu rosto. Seus cabelos negros tinham um brilho diferente naquela paisagem, os fios escorriam vagarosos pelo seu rosto e terminavam hora em seus olhos, hora no rumo da boca, hora em sua nuca, jogados de um jeito desarrumado. Seu nariz era aristocrático e combinava perfeitamente com sua boca. Os olhos, eram inocentes e as cores me lembravam as folhas jazidas no chão. De acordo com a maneira que movia seu rosto bem desenhado, as cores brincavam comigo, iam se misturando, hipnotizantes. Seu olhar foi me analisando de cima em baixo e quanto mais ele olhava, mais seu sorriso se abria, luminoso. Quem é este homem e por que me olha desta maneira? Por fim, percorreu o caminho de volta até o meu rosto e então disse com uma voz suave, se inclinando perto do meu ouvido: "Minha rajkumari, enfim te encontrei. Nossos destinos se entrelaçaram e mais uma vez pude ver seus lindos olhos, sundari...". Notei que havia um resquício de sotaque em algumas palavras. Não respondi, estava assustada e confusa, não consegui me mover e nem simplesmente questioná-lo. Ele sentou-se ao meu lado e ficou brincando com os meus dedos. Eu sentia uma forte conexão com aquela misteriosa pessoa, de alguma forma entendia o fato dele estar ali, como se concordasse e entendesse suas palavras. Como se eu já as estivesse esperando a tempo. Imersa em confusos pensamentos, estremeci ao sentir seus braços me envolvendo. Não consigo recuar... não quero recuar. O encarei tentando explicar porque sem conhecê-lo, eu me sentia tão segura ao lado daquele desconhecido. Mas estava presa demais ao seu olhar magnético. Pude sentir o calor do seu rosto se aproximando vagarosamente do meu, o braço que me envolvia me puxando para perto de si, o tempo ficando lento e as coisas ao redor desaparecendo...as forças do meu corpo foram se esvaindo... então tudo ficou turvo de repente. Abri os olhos aos sobressaltos! Percebi que havia adormecido no chão, de mal jeito, e meu corpo reclamava de dores. Levei a mão nos cabelos desarrumados e com o cenho franzido, fui voltando a realidade. Quando percebi o que havia acontecido, procurei ao meu redor para ver se ele ainda estava ali, assustada e ainda com esperanças de encontrá-lo. Teria sido tudo apenas um sonho? Não era possível, havia sido tão real. Mas nada de vestígios daquele rapaz. Meu corpo se retesou, apreensivo e dolorido com a forma que eu havia caído no sono, entre as raízes tortas. Havia passado algumas horas já desde o momento em que eu havia chegado ali naquele lugar e comecei a ficar preocupada com o tempo que havia gasto em minha não tão breve fantasia (o sol já havia sumido fazia tempo e a noite jazia serena). Me levantei, limpei a sujeira da minha roupa e me espreguicei, aproveitando para dar uma boa olhada no céu e num singelo contorno, do que parecia ser a lua. Suspirei fundo e decidi andar por uma trilha de terra por entre as árvores, que certamente me levaria a uma rua onde eu poderia seguir meu caminho até a minha casa. Enquanto eu andava, ia chutando as pedrinhas que se encontravam no chão e em meio aos passos, ia lembrando daquele rapaz de postura nobre como alguém da realeza, que até em roupas mais simplórias demonstraria força e confiança, com seu toque levemente angelical, perturbadoramente atraente. A árvore foi ficando para trás e com ela, minhas pertubações. Em cada pedrinha lançada longe pelos meus pés, levando junto o que havia sobrado dos meus pensamentos, eu desfrutava daquela breve imagem, daquele breve toque e de seus lábios se abrindo em doces palavras, sundari lembrança...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Soneto XVIII

Li um poema ontem de madrugada em um livro e achei lindo, de uma profundidade indescritível. É de William Shakespeare, porém o livro não é de sua autoria. A autora apenas fez menção ao poema em um momento no livro.

"Se te comparo a um dia de verão,
És por certo mais belo e mais ameno.
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Às vezes brilha o Sol em demasia,
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na eterna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nessa terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver."

domingo, 1 de janeiro de 2012

Meus olhos debruçados sobre a folha do calendário.

O dia desabrochou acalentador e levemente tristonho. Neste ano novo, não fiz promessas e nem refleti sobre quem fui. Não contei ansiosa, como quem conta as pétalas de uma flor, os segundos que findávam aquele  ano obsoleto. Abracei meus familiares como quem dá bom dia e desejei bonanças assim como quando eu converso com alguém, e ao olhar em seus olhos, penso: "quero e espero que você seja muito feliz." A comida tinha um aroma delicioso, este fazendo juz também ao sabor indescritível da mesma. Meu pai é realmente um bom cozinheiro, isso é inegável. A chuva que caia, damas em formas de gotas com seus trajes transparentes, tornava o momento mais acolhedor. O céu negro e profundo, estrelas bordadas como lantejoulas em um tecido refinado. O cheiro da chuva exalava. Alguns fogos antecipados, de donos apressados em chegar logo a meia-noite, soltos em meios termos. O barulho como um tiro de arma, e mal se viam as cores exuberantes serpenteando no céu. Quando eu corria para olhar, apenas fumaça e o que havia restado de um enxame de cores e brilhos. Um pouco de decepção neste momento. Mas nada que não fosse sanado mais posteriormente por uma boa imagem na televisão, de alguns fogos de artifício sendo soltos nos principais pontos turísticos brasileiros. Mas o que eu quero dizer, que em meios a tantas palavras não cheguei objetivamente ao ponto, é que, todas essas coisas: comidas deliciosas, abraços e desejos, decepções, reflexões, momentos acolhedores...todas não foram unicamente especiais neste dia do ano, pois eu as celebro todos os dias. Pode parecer um pouco monótono assim falando. Mas que estes então sejam os vossos desejo para o próximo ano: que estas coisas não passem despercebidas em seus dias corriqueiros, e que cada dia, seja como uma virada do ano. É necessário que isso se faça constante, que abraços sejam dados, que tudo seja feito como se fosse para um evento significativo (de comidas a desejos). As pessoas fazem inúmeros pedidos nestes momentos, porque ao longo dos meses, não perceberam que podiam fazê-lo naturalmente, em algum momento de seu cotidiano. Tudo vai se acumulando para o dia 31 e no ano seguinte, tudo se perde. Pois novamente, não sabem viver cada momento. Portanto desejo, além de amor e muita paz a cada um (sem exceções), que no início do ano que vêm, vocês não peçam tantas coisas. Mas que vocês agradeçam por tudo o que queriam, lutaram e conseguiram. A luta é diária. O pão é de cada dia. Não é que não tenha sido especial meu ano novo, mas foi igualmente especial como cada dia. E essas palavras não são da boca pra fora, as digo com minha alma, feliz, sorridente. Sim, como o sorriso de uma criança ao ganhar um presente tão almejado. Mas enfim, que o coração de cada um, transborde amor e fé e que com estes respectivos cheios, possam encher os corações vazios que vagam pelos cantos, errantes.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Ânsias do cerne.





Há algo quente em minh'alma
Confortante como o calor ingênuo da lamparina sobre a pele fria
Que ilumina vagarosa as frestas da escada do porão
Mofo que exala nostalgia e penumbra
Onde a lareira permanece acesa
Onde as fadas salteiam com as fagulhas do fogo
E mergulham em seus burburinhos musicais
A neve cai lá fora como um véu sobre os galhos disformes
Mas o cheiro esquecido me conforta
A nostalgia nutre meu âmago
A inscrição na limiar me causa angústia.


Sono Profundo Sonho